Comércio de rua perde para shoppings

Para os comerciantes, a queda das vendas nessas localidades tem os shoppings como um fator, mas não como o único. Falta de segurança e de estacionamento, entre outros aspectos que denotam falta de estrutura são também apontados. Para a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), o maior problema do comércio de rua tem sido a desunião dos comerciantes.

Juciara Mendes está prestes a comprar roupas para sua filha no Shopping Iguatemi. Moradora do Largo do Tanque, ela conta que há alguns anos comprava muito mais no próprio bairro, mas hoje em dia o Iguatemi é um dos seus principais locais de compra. “Gosto também na Avenida Sete e Baixa do Sapateiro, mas quando posso venho para o shopping”, conta.

Segundo ela, sua família, formada pelo marido e uma filha de 6 anos, tem melhorado a condição econômica e isso lhe permite privilégios que antes lhe eram proibidos. “É muito mais agradável andar pelo shopping, ainda mais com uma criança, é tudo mais bonito e não temos que enfrentar o calor”, destaca.

A ausência de clientes como Juciara é sentida pelos comerciantes da Avenida Sete. “É difícil negar que os shoppings atraem mais. Eles oferecem uma comodidade que não podemos”, reconhece Márcia Sampaio, gerente da Art Colchões. Dirigindo há cinco anos a loja que faz parte de uma rede que conta com mais nove em Salvador, ela dá o testemunho da decadência daquela área comercial. “As vendas têm caído ano a ano, estamos entre as mais fracas lojas da rede. Já as que ficam nos shoppings são as mais rentáveis”.

Alexandre Cerqueira, gerente há 3 anos da Finicia Móveis, outra rede que tem loja na Avenida Sete, acredita que a falta de segurança e de estacionamentos são fatores que devem ser considerados. Para ele, no entanto, o comércio da região não está completamente em decadência.

“Existe uma parte da Avenida Sete em que o comércio é muito bom, fica nas proximidades do Relógio de São Pedro, mas somente ali”, informa. Ele diz que a prova dessa realidade é facilmente percebida aos sábados. “Nas outras áreas da avenida, inclusive aqui, próximo às Mercês, fica tudo deserto, é só naquela região é que tem movimento”, relata.

Na Baixa dos Sapateiros, os comerciantes não acreditam que os shoppings sejam tão nocivos para suas lojas. Maria Helena, gerente da Destaque Modas há mais de dez anos, vê o movimento cair a cada ano, mas acredita que é a falta de estrutura do local que causa os maiores danos.

“Tem gente que acredita que os shoppings afetam, tem outros que não, eu acho que se o governo investir mais na região, inclusive colocando mais linhas de ônibus passando por aqui, ajudaria muito”.

De acordo com Vanderley Brito, proprietário de três lojas na Baixa do Sapateiro, os shoppings só afetam àqueles comércios que vendem artigos mais caros. “Nas minhas lojas, as roupas são R$ 6,00 cada peça, e no shopping coisas parecidas são cinco vezes mais caras”.

Apesar das boas vendas, Brito reconhece que muito poderia ser feito para melhorar o comércio da Baixa dos Sapateiros. “Segurança e estacionamento, são as principais carências”, aponta.

Liberdade sente mudança

O comércio de rua do bairro da Liberdade é um dos mais efervescentes da cidade, mas os comerciantes já sentem algumas mudanças que podem ter ligação com os shoppings. “Nossos clientes são moradores do bairro, mas creio que está ocorrendo uma mudança no seu perfil.

O fato é que as vendas não estão tão boas, e acredito que a falta de estacionamento e de segurança, pode sim estar fazendo as pessoas procurarem outros locais”, opina Paulo Alves, gerente da Laser Eletro há quatro anos.

Claudineia Paixão, gerente da loja de roupas Cattan há quatro anos, reconhece que algumas mudanças ocorreram no bairro, sendo o número de carros a principal delas, mas ela não acredita que isso leve os moradores a comprar em shoppings. “Lá é tudo mais caro, eu mesmo compro tudo para mim aqui no bairro. Não acredito que exista uma concorrência”.

Participação dos lojistas

Para Haroldo Nunez, diretor do Conselho do Comércio da CDL, o pior problema do comércio de rua é a falta de sociativismo dos lojistas. Segundo ele, que é também presidente da Associação dos Empresários da Cidade Alta de Salvador (AECASA), muitas ações estão sendo tomadas não só pela associação como pelo Fórum para o Desenvolvimento Sustentável do Centro de Salvador, do qual é também presidente.

“O problema é que eles não participam e além de ficarem desinformados, não cooperam conosco no esforço de melhorar a situação do comércio de rua”.

Para se ter uma idéia da falta de participação dos lojistas nas causas que eles próprios reivindicam, dos 3.800 pontos na cidade alta, apenas 10% deste total participam da AECASA. “Apesar disso, estamos trabalhando e já conseguimos atrair mais gente para comprar na Avenida Sete e temos um projeto que vai transformar a avenida num dos maiores shopping a céu aberto do Brasil”.

De acordo com Muniz, o projeto que deve fazer parte do PAC 2, prevê alargamento das calçadas com mudança do piso, a retirada da fiação elétrica aérea e a troca por um sistema subterrâneo e o retorno do bonde circulando na cidade alta. Para a Baixa do Sapateiro, o fórum do qual Nunez participa, vem trabalhando com o governo do estado num projeto de revitalização, que já está sendo iniciado e que deve ser finalizado até a Copa de 2014.

Sobre a Liberdade, apesar de está fora do eixo de influência das organizações que participam, Nunez acha que uma requalificação também se faz necessária, principalmente para organizar os camelôs. Falando sobre a suposta concorrência dos shoppings, Nuzes foi contundente. “Isso não existe, o comércio de rua é forte e já esteve em pior situação, a tendência é melhorar”.

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