Dilma quer unidade para avançar nas mudanças

Conversar melhor com as lideranças dos partidos da base aliada, aprofundar o exame de questões programáticas da ação do governo e fortalecer os vínculos entre o governo e sua base política. Foi com este objetivo que, nesta semana, a presidente Dilma Rousseff encontrou-se em três ocasiões diferentes, com a direção de seus interlocutores no campo político. Na segunda feira (dia 15) reuniu-se com líderes do PT e do PMDB, que são as maiores agremiações de sua base de sustentação; na noite da terça feira, com as direções do PCdoB, PDT e PSB; e ontem, quarta feira, almoçou com dirigentes dos demais partidos da base do governo: PP, PTB, PSC e PRB.

São reuniões que, na avaliação do presidente nacional do PCdoB, Renato Rabelo (que participou do encontro da terça feira e falou sobre ele ao Vermelho) permitem um ambiente de maior aproximação entre a presidente e os partidos do que encontros mais formais e extensos como as reuniões regulares do Conselho Político do governo. São reuniões menores nas quais os partidos podem se manifestar com mais profundidade sobre os temas em exame e o diálogo pode ocorrer com mais profundidade, avalia o dirigente do PCdoB.

Renato Rabelo percebeu na presidente da República uma preocupação com a defesa da unidade da base, na busca de meios para sustentar essa unidade, que é fundamental e primordial para o cumprimento do programa de mudanças defendido por Dilma Rousseff. Daí o esforço da governante de se envolver pessoalmente no esforço para fortalecer a relação com a base aliada.

Contrariando a imagem de uma gerente tecnocrática difundida pela mídia hegemônica, Dilma Rousseff vai se revelando uma observadora política perspicaz. Que tem uma obsessão, palavra que a presidente tem usado para caracterizar os principais objetivos de seu governo: o desenvolvimento, o investimento e a distribuição de renda. E é em torno dessa “obsessão” que organiza sua avaliação da conjuntura política. Dilma Rousseff tem consciência, disse Renato Rabelo, de que a oposição está nos partidos conservadores e também na mídia hegemônica, que tem uma ação ampla pois domina poderosos meios de comunicação.

Num primeiro momento (o da alegada “lua de mel” que marcou o primeiro semestre), a oposição trabalhou para incompatibilizar seu governo com o de Luiz Inácio Lula da Silva, desconhecendo (ou ignorando) a relação de continuidade entre ambos. Deixaram inclusive de falar, notou a presidente, que ela foi Ministra da Casa Civil de Lula e, nessa condição, participante fundamental e decisiva das decisões tomadas por ele. Agora, age para incompatibilizar a presidente com sua base parlamentar, e daí os sucessivos escândalos midiáticos, difundidos pela imprensa e usados pelos parlamentares de oposição como ferramenta para colocar uma cunha entre a presidente e os partidos que a apoiam.

Dilma: ética não é bandeira mas obrigação de todos

É neste quadro que a presidente tem dito, para quem quiser ouvir, que não será refém da mídia hegemônica. Posição que reflete a compreensão clara de que a luta política em curso opõe duas pautas opostas: a agenda do governo fundamentada na “obsessão” pelo desenvolvimento e pela distribuição de renda, e a pregação conservadora da mídia, que insiste na “faxina” (repetindo, meio século depois da renúncia, em 25 de agosto de 1961, a vassourinha varredoura de Jânio Quadros).

A disposição de Dilma, diz Renato Rabelo, é enfrentar a pretensão da mídia hegemônica de impor, política e ideologicamente um roteiro político para o governo baseado na ação contra a corrupção, na “faxina”. É nesse sentido que a presidente não aceita ficar a mercê de uma pauta política que não é a dela.

Além disso, Dilma tem a convicção de que ética e o respeito aos recursos públicos são princípios fundamentais para todos os homens públicos. São pré-requisitos, pensa ela. E não bandeira de governo: a bandeira do governo é o avanço do desenvolvimento nacional, a ampliação do mercado interno e a distribuição de renda, como ela tem assegurado em entrevistas, conversas privadas ou pronunciamentos públicos, um deles feito na apresentação dos novos oficiais-generais (terça feira, dia 16). Meu desafio, disse para eles, “é desenvolver e distribuir renda. Esse é o meu grande desafio. O resto a gente tem de fazer por ossos do ofício”, comentando o combate à corrupção.

Aliás, a presidente percebeu uma “coincidência” entre o lançamento de seus programas de seu governo e a divulgação simultânea, pela mídia hegemônica, de denúncias de irregularidades, num esforço para deixar em segundo plano, no noticiário, a ação do governo. Em junho, por exemplo, cinco dias depois do anúncio do programa “Brasil sem Miséria” (no dia 2), começaram a pipocar as notícias que levaram à renúncia do ex-ministro Antônio Palocci.

Relação harmoniosa

No enfrentamento com a oposição e em defesa da continuidade e aprofundamento das mudanças iniciadas no primeiro mandato de Lula, Dilma Rousseff conta com “nosso apoio e uma participação mais intensa em defesa do governo”, disse Renato Rabelo, que identificou uma forte identidade entre os objetivos do governo e dos três partidos que estiveram com a presidente na noite da terça-feira. É preciso ter um trabalho articulado em relação aos temas de maior investimento, desenvolvimento e distribuição de renda, disse. A base de apoio precisa ter uma relação harmoniosa com ela para fortalecer esta pauta.

Além disso, a ação da mídia hegemônica parece ressoar apenas no setor da população sensível à sua pregação conservadora e direitista. Em termos de prestígio popular, não há sinais de que a opinião conservadora tenha comprometido a valorização favorável que a presidente mantém entre o povo. A última pesquisa da CNT/Sensus mostra que 49,2% das pessoas aprovam o governo como ótimo e bom, 37,1% avaliam como regular, e apenas 9,3% como ruim e péssimo.

Crise mundial e janela de oportunidades

Outro tema importante da conversa da presidente com os dirigentes aliados, disse Renato Rabelo, foi a gravidade da crise econômica mundial e seus reflexos no Brasil. Dilma Rousseff é otimista quanto à capacidade do Brasil enfrentar as ameaças e pensa que o país está, hoje, em melhores condições do que no passado para superar as adversidades. Mas é um otimismo cauteloso e prudente pois, diz a presidente, não se pode subestimar a crise, que atinge a todos e é crônica e contra a qual “a gente tem que defender o país”, relatou Renato Rabelo.

Dilma Rousseff vê dois problemas principais. Um deles é o excesso de dólares mantidos pelas autoridades dos EUA para inundar o mundo e forçar a valorização artificial das moedas, entre elas o real. O outro é a recessão mundial que envolve os países mais desenvolvidos que, em dificuldades econômicas, procuram invadir nossos mercados com suas exportações de manufaturados e empurrar para nós a solução de seus problemas, com efeitos potencialmente maléficos para nossa economia, entre eles a criação de dificuldades para nossa indústria e mesmo a desindustrialização. Outra dificuldade ainda relacionada à recessão é que, se ela se amplia, pode provocar a queda nos preços das exportações brasileiras (commodities) em consequência de uma diminuição da demanda em virtude da redução da atividade econômica global.

Por outro lado, a presidente concordou, com ênfase, com a tese defendida por Renato Rabelo da necessidade da evolução da crise ser acompanhada com atenção pois ela pode ser uma janela de oportunidades para o Brasil, criando as chances de mudanças na orientação macroeconômica (como mudanças no câmbio e na taxa de juros) favorecendo a produção nacional e o desenvolvimento do país.

É uma mudança que pode estar no horizonte mas sua efetivação não depende apenas da disposição e da vontade, alerta Renato Rabelo. Ela envolve riscos que podem comprometer a retomada do desenvolvimento que o país vive nos últimos anos. O governo leva em conta, assegura o dirigente comunista, a possibilidade de promover mudanças na política macroeconômica, mas precisa ter força social e política para isso.

A presidente tem demonstrado a intensão de mudar mas, para que isso ocorra, precisa consolidar a confiança da Nação e fortalecer sua autoridade política perante a Nação e a base política para enfrentar os poderosos interesses dos círculos financeiros dominantes, que são obstáculos ao aprofundamento do desenvolvimento. Para aproveitar as oportunidades que possam surgir, ela precisa firmar sua liderança diante da Nação e estimular a atuação dos partidos da base aliada em defesa do governo e de um programa desenvolvimentista, fundamental para a conquista deste objetivo político, pensa Renato Rabelo.

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