Orientais estão tomando conta do comércio no Centro da cidade

Seja trabalhando em restaurantes de estrutura familiar ou em lojas de produtos importados, não é muito difícil encontrá-los. As vendas de artigos como bolsas e alimentos nesta parte da cidade se devem bastante a eles. No entanto, mesmo a milhares de quilômetros de distância da sua terra natal, eles procuram manter sua cultura nos estabelecimentos em que trabalham, o que pode ser visto na decoração dos espaços ou através de fotos como a do político e líder da revolução chinesa de 1949, Mao Tse Tung.

Apesar de falar português, Wu Ching Long, dono de uma loja que vende produtos importados na Rua Carlos Gomes, tem um leve sotaque mandarim, mas garante que é “Metropolitano de Salvador”. Ele já faz parte da terceira geração da família que chegou a capital baiana no final dos anos 1910, do século passado. “Meu avô começou primeiramente com uma lavanderia, depois passou para uma pastelaria e agora estamos nessa loja que funciona há mais de 30 anos”, contou.

De acordo com ele, o avô veio à cidade depois de saber, por conterrâneos, sobre as boas oportunidades que eles poderiam desenvolver aqui. “Um é que veio puxando o outro. Aqui descobrimos que, além de trabalhar bastante, poderíamos fazer as nossas economias, investir e viver tranquilamente, diferente dos brasileiros, que gastam o que tem e até o que não tem para satisfazer as suas necessidades”, relatou.

SIMPATIA

No entanto, apesar das diferenças culturais entre orientais e baianos, Ching Long elogia a nossa forma de viver e diz que, comparado com outros estados, a Bahia é muito mais receptiva a quem vem de fora. “Vocês são muito simpáticos e gostam de conversar. Basta uma palavra para quem se desenvolva um papo por horas, até mesmo sobre a própria família. Em outros estados, como São Paulo, a gente não vê isso”, disse.

Dentre as coisas que mais gosta na cidade, ele destaca o bom ambiente da cidade, as praias e pouca poluição que aqui tem comparada a outros grandes centros. Por outro lado, o que o incomoda bastante é violência. “Ao invés de os bandidos ficarem atrás das grades, quem fica somos nós. Isso é bastante estranho para mim”, falou. A mesma queixa tem o chinês Tim, que utiliza o nome para facilitar a comunicação com os funcionários e clientes no restaurante de comida à quilo que existe no Largo Dois de Julho há 20 anos. Para ele, a diferentemente da China, as leis aqui no Brasil são muito fracas. No local desde 2007, vindo da cidade de Cantão, ele chegou depois que o pai já estava instalado em Salvador. “Comecei ajudando ele e agora estou tomando conta do restaurante. Mas eu estou gostando da cidade”, disse ele, em português, com muita dificuldade.

Eles são bons patrões, diz funcionário

Quem trabalha com os orientais no dia-a-dia não tem dúvidas. Mesmo com o perfil mais reservado, os funcionários garantem que eles sabem recompensá-los por conta dos serviços prestados. “É muito tranquilo trabalhar com eles. Mesmo com a diferença de cultura, nunca tive qualquer problema em entender o que eles pedem ou querem da gente”, contou Nadjane Amorim, que há dois anos trabalha na loja de produtos importados.

Garçom do restaurante há quase 20 anos, Marcos Batista é só elogios aos patrões. “Se eles permitirem, eu só saio daqui quando me aposentar. Por enquanto aqui está tudo muito bom. Mas, vale dizer que tem muito chinês que não trata bem o funcionário, que não ajuda a gente, que só pensa no lucro. Quanto ao Tim, é justamente ao contrário, sempre que possível, ele entende a nossa situação”, revelou.

PARTICIPAÇÃO

Mesmo com o crescente número de orientais no comércio de Salvador, a participação deles na economia da capital baiana ainda é pequena, sem contar também a geração de empregos formais e a porcentagem deles com estabelecimentos como um todo. “Não é uma coisa de dimensões tão grandiosas em relação ao universo do comércio do estado. Para se ter uma ideia, Salvador tem 12 mil lojas.

Nós não temos nem 200 lojas comandadas por eles que estejam legalizadas. Com relação ao PIB do estado, o que posso dizer também é que é um valor baixo. Além disso, temos cerca de 125 mil comerciários. Dessas 200 lojas já citadas, acredito que não haja nem mil empregados, por que são os próprios familiares que trabalham no negócio muitas vezes”, disse Paulo Mota, presidente do Sindilojas.

Por outro lado, ele destaca que, com esse aumento, há uma procura maior deles em realizar a formalização dos seus estabelecimentos e respeitar as normas em vigor no país. “É uma atividade que vem crescendo aqui em Salvador, como cresce a presença em outros estados do país. O que nós temos a colocar é que muitos deles buscam legalizar seus pontos de venda, quando antes eles viviam em uma situação informal, no comércio ambulante, tornando desleal a concorrência com outros pontos que já estavam legalizados. Com isso, só quem tem a ganhar é o consumidor baiano”, analisou.

Fonte: Tribuna da Bahia

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