Versão atualizada de “Casa Grande e Senzala”

A BABÁ E A PASSEATA

Uma foto ontem representou de certa forma a enorme distância entre visões de mundo que vai nos separando. A par da distância entre os que acudiram ao chamado de sair às ruas – num chamamento público “nunca visto antes na história deste país”, pela rede e Jornal Globo, outras TVs, Jornais como Folha e as principais mídias do país, – e que ainda teve como ponto alto um texto de um jovem “articulista” na Folha de SP chamando para o ato – e os que se negaram a participar dos referidos atos pelas mais diversas razões, outra distância ficou bastante evidente ontem.

Me refiro a distância entre os que nada viram de errado na foto do casal branco levando os filhos para o protesto junto com sua babá negra uniformizada e os que enxergaram ali a mesma construção social da Casa Grande e da Senzala.

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Esta foto da babá e a passeata remete ao filme “Amores Brutos”, dirigido por Alejandro González Iñárritu, – o mesmo que dirigiu o excelente “ O Regresso”- , em que histórias que pareceriam distantes acabam se conectando ao final, dando um sentido se apenas vistos individualmente muito provavelmente não teriam, fazendo com que a dor e o sofrimento do outro fosse tomado como algo não individual, mas representativo e sintomático de todo um ciclo que teima em não terminar. Pois, como no filme, as histórias particulares de ontem se conectam, ao fazerem isso, dão um sentido especial ao significado de uma simples foto.

Assim, a imagem retratando um casal branco com seu equipamento de protesto na avenida, a clara percepção da classe media na tez, a boa roupa e principalmente a camisa amarela, e logo atrás a babá negra, vestida à caráter, ou seja, com seu uniforme de branco não tem absolutamente nenhum significado, nenhuma simbologia para um grupo de pessoas.

E para estes não tem significado por vários motivos. Talvez o primeiro e imediato é o que deve ter se passado com milhares de pessoas em três séculos de escravidão. Não enxergavam problema algum em que homens escravizassem outros homens, o que se pode definir de forma simples como falta de “empatia” com o próximo.

Neste passo, pode-se dizer que quem, infelizmente, não conseguem ver a perfeita reprodução da Casa Grande e Senzala naquela foto padece de alguns males. Talvez o primeiro seja ligado ao próprio conhecimento do que foi a ‘Casa Grande’ e do que foi a ‘Senzala’, talvez mesmo nem tenham conhecimento que um certo Gilberto Freire que escreveu uma obra com este nome, cujo significado até hoje é disputado, dado que o fez comparando a escravidão brasileira à escravidão norte-americana do sul dos Estados Unidos.

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A ideia de remarcar espaço, de vestir a babá negra com roupa de empregada e jogá-la na multidão, deixando bem claro que se tratava de uma serviçal negra, como que para que distanciar-se daquela pessoa, parece ser comum e, pois, não encontra nenhum problema para aqueles que, como os de ontem, não viam problema algum em uns serem apenas objetos e outros sujeitos de direito. Querer, para estes, que a babá não fosse levada para ser humilhada na multidão branca dos protestos, como troféu negro das relações raciais ainda existentes no Brasil, – para estes – é querer algo fora do mundo racional dos homens.

Ao remarcar que era um serviçal que ali estava, o casal se amoldou como uma luva ao que Pierrer Bourdieu escreveu em páginas maravilhosas no seu texto “ A Distinção – Crítica social do Julgamento”. Bourdieu neste livro nos oferece um instrumental para compreensão do mundo da elite e o mundo daqueles que estão fora dela. Principalmente a sua tese de que a distinção de gosto é meticulosamente construída, que a hierarquia social e cultural funciona como ‘marcadores privilegiados’ da sociedade, analisando o peso da educação, da origem social, dos anos de estudo, na construção desta distinção. Bourdieu viu que diversos tipos de marcadores cumpriam este papel, tais como cor, tipo de roupa, de música, de gosto pela arte, de esporte.

Para Bourdieu a elite sempre remarca sua distinção, e o faz para manter a distância, para que não corra o fisco de ficar parecida com pessoas que deseja manter essa distância. A cor da babá, a roupa que usava, notadamente são os marcadores a que se refere de Bourdieu. Ir para o protesto com uma babá vestida igualmente conosco, seria impensável, diria o casal.

E para que não fique qualquer dúvida do que pensamos, é preciso dizer logo que vemos nisso algo muito simples, qual seja, para um setor social o que se almeja é uma sociedade em que uns vão defender o seu projeto de sociedade e outros vão a reboque, como “marcadores” da própria distinção que se quer operar na construção daquele mesmo projeto de sociedade.

Dito de outra forma, a sociedade que uns querem construir é a sociedade da distinção, que remarca a distância entre a Casa Grande e a Senzala. E essa sociedade ficou muito bem retratada na figura do casal e da babá vestida como empregada.

Não ficaria impressionado de saber que é essa a sociedade que muitos dos que estavam no protesto almejam. Como acho que muitos ali também não concordam com ela. Mas não deixa de ser bastante elucidativo isso: há os que não se incomodam com a enorme distância social no país. Falar em igualdade e isonomia é um tipo de discurso que lhes convém.

Mas, o pior não é isso. O pior é quando a pessoa não consegue enxergar a manutenção desse status quo, nem mesmo de forma pictórica. Ou seja, pior do que defender a construção de uma sociedade não igualitária, que continua a excluir pessoas, é não ter a capacidade de percepção de que isso ainda hoje é tecido com igual e mesmo zelo como antigamente.

Nem precisa de um aparato instrumental de leitura, seja do brasileiro Gilberto Freire ou do francês Bourdieu, para compreender essa manutenção recorrente da distância entre pobres e ricos nos país, pois, talvez só precisasse mesmo de empatia, de reconhecimento do outro.

Escrevo, pois, essas linhas com a mesma afeição que Heidegger uma vez escreveu para Mateus Lang, professor num colégio onde tinha estudado por alguns anos, em que naquela oportunidade o filósofo disse que “ filosofar é ser iniciante”, pois, talvez possamos, ao invés de construir visões de mundo tão distintas, iniciarmos a construção de algo que nos aproxime.

Por Rogério Marcos de Jesus Santos – Advogado da União

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